Recrutados depois da aposentadoria

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Recrutados depois da aposentadoria

Eles já haviam dado sua carreira por encerrada. Mas, atraídos por ótimas propostas de trabalho, retornam ao batente para suprir a escassez de mão-de-obra qualificada

Aos 55 anos, o engenheiro José Carlos Greppe comprou sua primeira casa de campo, organizou a biblioteca, aprendeu a jogar golfe e passou uma temporada na Europa com a mulher sem ter marcado a passagem de volta. Estava aposentado – “sem culpas nem saudade do escritório”. Foi quando recebeu três ótimas ofertas de emprego. Recusou todas. Aí veio mais uma, feita justamente pela empresa onde havia trabalhado por vinte anos. Além de um salário de alto executivo, foi-lhe dada a opção de fazer o próprio horário. Greppe aceitou. Ele diz: “Com tantas regalias, não consegui negar”. Não é o único caso de ex-aposentado nos quadros da Promon, uma das maiores empresas de engenharia do país. Greppe e mais 35 engenheiros de faixa etária parecida (e já em pleno ócio) foram convidados a ocupar vagas para as quais estava difícil achar profissionais tão especializados à disposição no mercado.

Um recente estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a história tem se repetido em muitas outras companhias no país. É o que explica o fato de o número de cinqüentões recém-empregados ter crescido 50% no último ano – enquanto o de jovens aumentou 30%. A disputa por eles é acirrada. A diretora de recursos humanos da Promon, Márcia Fernandes, ouviu de vários dos supostos aposentados que tentava recontratar: “Já arranjei outro emprego”.

O que motiva os veteranos a regressar à velha vida no escritório? Antes de tudo, condições de trabalho melhores do que aquelas que haviam deixado para trás. Para atraí-los, as empresas oferecem bons cargos, horários flexíveis e salários em média 30% maiores que o valor do último contracheque antes da aposentadoria. Diante de tantas regalias, a volta ao trabalho se torna uma boa oportunidade de juntar mais dinheiro para a velhice. Outra razão para o retorno diz respeito ao sentimento que se abate sobre eles depois de um tempo longe do batente. Ainda se vêem jovens e começam a sentir o “vazio da improdutividade”. É assim que o engenheiro civil Misael Sá, 56 anos, se refere à angústia de parte do período de oito anos em que passou em casa. Deu tempo para fazer aulas de inglês, direito e informática, mas era só passar por um canteiro de obras para ser tomado de lembranças. Há um ano, decidiu voltar. “Aos 50, gosto mais do trabalho, porque tenho total domínio do que faço e ele deixou de ser uma obrigação. É uma escolha.”

Veteranos que antes tinham dificuldade em arranjar emprego passaram a ser tão requisitados agora porque há, no Brasil, uma crônica escassez de mão-de-obra qualificada para desempenhar certas funções – entre elas a de engenheiro, agrônomo e analista de sistemas (veja quadro). São ao todo 200 000 vagas ociosas por ausência de gente preparada para ocupá-las, segundo um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Situação típica de nações que, como o Brasil, crescem em ritmo veloz e passam a requerer um grande número de profissionais de bom nível para suprir as novas demandas da economia. Para se ter uma idéia, o país precisaria de pelo menos 25 engenheiros para cada grupo de 100 000 habitantes se quisesse dar conta de obras que começam a sair do papel. Tem apenas seis.

O que piora a situação é o fato de os recém-formados deixarem a faculdade despreparados para executar até mesmo funções básicas nas empresas, outra razão para que elas saiam à caça dos experientes. Os mais velhos contam com uma vantagem adicional: ajudam a acelerar a adaptação dos novatos ao mercado de trabalho. Viram seus mentores. “Oferecemos ótimos salários e cursos no exterior para tornar o emprego atraente aos mais velhos. Nunca precisamos tanto deles”, diz Lairton Corrêa, gerente de recursos humanos da Petrobras.

Entre os aposentados, há um tipo bem específico que interessa às empresas: aquele que já havia consolidado a carreira e se mantém, de alguma forma, conectado à sua área. Ainda assim, elas precisam investir na atualização dos que retornam. O primeiro mês na volta ao trabalho é de muito treinamento e pouca produção. Trata-se de um período de “recauchutagem”, segundo o jargão das empresas. O especialista em ferrovias Peter Alouche já passou dessa fase. Aos 59 anos, teve uma chance rara. Depois de uma brevíssima aposentadoria de um mês, ele, que sempre trabalhou em empresas de transporte público, aceitou um emprego de consultor na iniciativa privada. Alouche está eufórico: “Sinto-me como se tivesse 30 anos”.

Fonte:  parte do conteúdo extraído da Revista Veja, Edição 2068, de 09 de julho de 2008  no texto do  site: http://www.udemo.org.br/Leituras_207.htm

Category: Trabalho +50

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